Empurrão

Também é preciso ler coisas destas sobre o referendo ao aborto. Uma vénia, um aperto de mão e, já agora, um empurrãozinho ao Vladimiro Jorge e ao seu humor que nos desarma.

Também é preciso ler coisas destas sobre o referendo ao aborto. Uma vénia, um aperto de mão e, já agora, um empurrãozinho ao Vladimiro Jorge e ao seu humor que nos desarma.

Via A Origem das Espécies, vários parágrafos escandalosos em manuais escolares, denunciados pelo Expresso, citado no Destaques a Amarelo; ou ilustrações da desgraça do ensino em Portugal.
Adenda: A pedido de várias famílias e com os devidos créditos ao Destaques a Amarelo, seguem-se os ditos cujos.
“(Proposta de exercício) Actualizar a figura do judeu de Gil Vicente sob a forma de um «israelita fanático que participa em acções terroristas contra palestinianos” - AULA VIVA 9.º ANO, João Augusto da Fonseca Guerra e José Augusto da Silva Vieira, Porto Editora. “Mulheres - talvez o exemplo mais escandaloso da discriminação de um tipo de pessoas o que os países muçulmanos fazem às mulheres. Aí, elas não só estão submetidas ao marido, como não podem sair sozinhas, e não têm virtualmente direitos nenhuns”. LÍNGUA PORTUGUESA 7 - Maria Ascenção Teixeira e outros, Texto Editores. “Além destes princípios (os 5 pilares do Islão) que devem ser integralmente respeitados, desde logo se estabeleceu ao crente a obrigação da jihad, a guerra santa, destinada a espalhar a fé”. O TEMPO DA HISTÓRIA, 10.º ANO - Cecília Pinto de Couto, Maria Antónia Rosas, Porto Editora.
A minha vantagem é acreditar. Acredito que, desde a fecundação, aquele crescente conjunto de células que ajudei a originar era já a minha filha e que é assim com cada gravidez, desde o primeiro momento, no seio de cada mulher. É uma vida humana, uma pessoa. Por isso é que somos todos, no fundo, contra o aborto.
Acabar com uma criança no útero da mãe é, para mim, uma enormidade, porque acredito ser ela uma vida tão importante e tão defensável como qualquer outra vida humana. Não espero convencer ninguém porque é uma questão interior, uma questão de acreditar.
também publicado em Arte do Perigo.
Pedro Caeiro, no lado esquerdo do Mar Salgado, escreveu ontem este post sobre o aborto. Não concordo com muito do que diz, não comungo sequer do sentido de voto, mas é, provavelmente, a mais bem escrita apologia do “sim” em toda a blogosfera - sem exageros nem inexactidões, sem rendilhados nem desvios, falando, sem acusações nem preconceitos do que é essencial e assumindo uma posição clara como a água.

Faz bem, muito bem, ler coisas destas no Estrago da Nação, um blog competente, sério e corajoso que, novamente, recomendo.

Tinha assumido, comigo mesmo e por uma questão de oportunidade, o compromisso de não falar aqui da questão aborto antes do fim do mês. Como se somam, todavia, as palermices (ditas de ambos os lados), relato, como exemplo, a minha perplexidade (ficámos, lá em casa, de boca aberta…) em relação a um comentário que, a propósito, ouvi ontem (jornal da noite, na SIC) à procuradora-geral adjunta Dra. Maria José Morgado. A senhora disse que o voto “sim” no referendo é um voto contra a corrupção, porque “o aborto ilegal é um negócio que produz dinheiro sujo”, não tributado e “que circula em canais clandestinos”. Disse, ainda, que “estes fenómenos potenciam a corrupção, a venalidade e crimes de enriquecimento ilícito”. Por fim, falou de ”clínicas em Portugal que são slot machines de ganhar dinheiro”.
Uma coisa é assumir uma posição em relação à escolha em causa no referendo, outra é, na posição da senhora, dizer isto tudo assim, impávida e serena; ou será que vem aí uma grande investigação ao mafioso mundo das clínicas que ilegalmente fazem abortos?
Já sobre os fanáticos ignorantes que andam a espalhar uma pagela de Nossa Senhora de Fátima com uma mensagem que mistura os 90 anos das aparições com o apelo ao voto no não, devo dizer que cada segundo de raciocínio gasto a este respeito é pura perda de tempo.

Lido hoje o post de ontem do José Matos, no Terra Nostra, deixo alguns comentários e o link para a Carta Educativa do Município, que esteve em consulta até ontem e à qual nos dedicaremos, em profundidade, nos tempos mais próximos.
Sou um convicto defensor da concentração escolar e da construção planeada de centros educativos de referência, que proporcionem os recursos em falta nas escolas de pequena dimensão (e mesmo em algumas maiores). Se reforçarmos dizendo que estamos a falar de uma poupança de recursos materiais, físicos e, principalmente, humanos, percebemos que acontecerá uma resistência forte. Mas o grande mérito desta transformação é o ganho pedagógico e a fantástica oportunidade das crianças dos lugares mais pequenos e meios mais periféricos terem acesso às estruturas fundamentais nas escolas do séc.XXI (a biblioteca, o espaço internet, o pavilhão desportivo, o refeitório). A organização dos próprios agrupamentos de escolas sofrerá um forte incentivo facilitador e esta transformação só pode acrescentar qualidade ao ensino.
Existem investimentos efectuados entre 2002 e 2005 em muitas escolas que, do meu ponto de vista, não são perdidos (Água Levada, Roxico, Vale Castanheiro, todas escolas a encerrar no próximo ano lectivo, estão entre elas). As escolas são património municipal e todos já percebemos que aqueles espaços servirão, futuramente, outros fins de relevo, entre os quais se destacam os das colectividades - significa isto que se encontrarão, ali, espaços melhorados, em boas condições e, por isso, sem encargos de vulto para os novos utilizadores. Esperam-se projectos úteis e novidades no movimento associativo do concelho, para o qual esta “revolução” pode significar uma realidade inteiramente nova. Mas, do ponto de vista educativo, devem-se esperar, também, muitas dificuldades: a curto prazo muitas outras escolas encerrarão (a Carta Educativa aponta uma solução corajosa, segundo a qual o parque escolar se concentrará, em 2011/2012, em 4 grandes centros escolares - Avanca, Pardilhó, Beduído e Salreu - e a Escola Secundária) e mesmo sabendo que a escolha dos pais, depois da primeira reacção de dúvida ou repulsa, é a de procurar a melhor escola - está a acontecer em Avanca, com o esvaziamento da escola da Bandeira, em favor da renovada e excelentemente equipada escola do Mato (claramente o futuro centro escolar, inclusive com a agradável possibilidade de fusão com a EB2/3 Prof. Egas Moniz), as coisas não serão fáceis.
A carta educativa lembra-nos, por outro lado, uma realidade sombria na evolução demográfica do município e, em particular, das freguesias a sul. Assiste-se, é sabido, a um fenómeno de concentração demográfica em Beduído e o desenvolvimento da urbanização da Quinta do Outeiro, em Avanca (um terreno hoje vazio e onde habitarão, num futuro próximo, 600 pessoas - um salto de 9,2% no total de residentes na freguesia), pode fazer com que a minha vila retome a via do crescimento populacional. De resto, uma organização escolar melhorada e a respectiva rede de transportes, a revisão do PDM (e, já no presente, as medidas preventivas em vigor), o “preenchimento” do eco-parque empresarial com novas empresas e mais emprego, só podem ser factores de atracção de pessoas. Na minha perspectiva, não faltará muito tempo, também, para que uma vaga de gente comece a encontrar em Fermelã, Canelas e mesmo Salreu a localização descansada, natural e bem servida de bens básicos, para morar junto à Ria, perto de Aveiro e de Estarreja, fugindo da confusão e dos preços especulativos de terrenos, apartamentos e casas.
É interessante perceber como a profunda evolução por que caminha o município tem uma base de peso na reorganização escolar e entender que essa é a forma correcta de fazer planeamento e, principalmente, planeamento consequente. Lembro-me que, chegados à Câmara, em 2002, propusemos de imediato o encerramento da escola do Barreiro de Além, entretanto fechada pelo Ministério da Educação (ME), na mesmíssima perspectiva que assiste hoje ao conjunto de medidas em execução pela mão do mesmo ME. É interessante perceber que essa transformação (necessariamente acompanhada de outras medidas necessárias cujo enunciado não cabe neste apontamento) se processa (até ver) quase silenciosamente, mas de modo firme.
Adenda - porque pode ser útil para ilustrar o que se diz acima, deixo o resumo do conteúdo da Carta Educativa no que diz respeito à intervenção programada:
“Ano lectivo 2007-2008: Para a freguesia de Avanca a proposta é encerrar a Escola Básica de Água Levada, sendo o total de alunos matriculados no Pré-escolar e no 1º Ciclo mobilizados para a Escola Básica da Congosta, visto ter capacidade para suportar tal quantitativo. Para a freguesia de Salreu propõe-se o encerramento da Escola Básica de Vale de Castanheiro, sendo os alunos do Pré-escolar e do 1º Ciclo mobilizados para a Escola Básica da Senhora do Monte. Para freguesia de Fermelã propõe-se encerrar a Escola Básica do Roxico, sendo o total de alunos mobilizados para a Escola Básica da Terra do Monte. Esta mobilidade de alunos fica a cargo do município, que em viatura adaptada para este fim, assegura aos pais e encarregados de educação a total confiança. Ano lectivo 2008-2009: Para a freguesia de Avanca a proposta é encerrar a Escola Básica da Bandeira, sendo o total de alunos matriculados no Pré-escolar e no 1º Ciclo mobilizados para a Escola Básica da Congosta, visto ter capacidade para suportar tal quantitativo. Ano lectivo 2009-2010: Construção da Escola Básica Integrada a Sul do Concelho. Ano lectivo 2010-2011: Construção do Bloco para a educação pré-escolar na Escola Básica Integrada Padre Donaciano Abreu Freire - Beduído Ano lectivo 2011-2012: Construção do Bloco de salas na Escola Básica Integrada de Prof. Dr. Egas Moniz - Avanca (…) o município de Estarreja passaria a ser constituído pelos seguintes Equipamentos Educativos e respectivos Agrupamentos: Avanca: Escola Básica Integrada com Jardim-de-infância - Prof. Dr. Egas Moniz (Agrupamento de Escolas de Avanca). Beduído: Escola Básica Integrada com Jardim-de-infância - Padre Donaciano Freire (Agrupamento de Escolas de Estarreja); Escola Secundária de Estarreja; CERCIESTA (Ensino Especial); C.N.O. (Centro Novas Oportunidades). Pardilhó: Escola Básica Integrada com Jardim-de-infância de Pardilhó (Agrupamento de Escolas de Pardilhó). Salreu: Escola Básica Integrada com Jardim-de-infância do Sul de Estarreja (Agrupamento de Escolas do Sul de Estarreja).”
Não sei se haviam sido previamente anunciados, mas grande parte do meu interesse na edição de ontem à noite do programa da RTP “Os Grandes Portugueses” residia em saber quem eram os defensores das personalidades do top10 final. No fundo penso que, entre os candidatos, há dois particularmente difíceis de defender (Salazar e Cunhal) e que morará, eventualmente, nessa defesa, o futuro das audiências do programa.
Como em todas as opções que se votam com tamanha abrangência de “eleitorado” (valha-me Deus, esta afirmação ainda me vai sair cara…) corremos o risco de passar ao lado de grandes escolhas. De facto, achei-me estranho quando perfeitamente de acordo com o lamento de Ana Gomes (!) por não figurar, neste top10, o Padre António Vieira, não só pelo que fez, como pelo que defendeu e pelo que sonhou (ou apontou para o futuro) e, ainda, pela forma como fez. Em jeito de “apreciação geral”, votaria, antes dos “advogados”, em D. João II ou em Aristides de Sousa Mendes. Com estes defensores… não sei.
Confessando-me leitor de Jaime Nogueira Pinto (do excelente blog, dos muito bons livros - entre os quais este e este estão entre as minhas leituras favoritas sobre política), não me surpreende, enfim, vê-lo como “advogado de defesa” de Salazar e como aprecio as suas honestidade intelectual, seriedade e coerência, seguirei atentamente o que dirá.
Por fim, não deixa de ser curioso dar uma vista de olhos ao reverso da medalha e perceber que, por aqui, há coisas curiosamente diferentes…

Entre as coisas mais enervantes de Portugal está o erro ortográfico acima, onde o irritante acento circunflexo expõe a verdade do ditado: uma parvoíce tantas vezes repetida transforma-se numa regra respeitada. O mais grave é que vejo, todo o santo dia, uma destas foleirices quase à porta de casa. Quem é que lhes disse que aquilo se escreve assim?