O que menos me agrada na Carta Educativa de Estarreja é a sua inevitabilidade. É tão razoável como inevitável e, por isso, dispensa parte do nosso livre arbítrio. Dizem-nos, os tempos, como vamos ter que, obrigatoriamente, agir e isso não bate muito bem com a minha maneira de ser. Ser o ordenamento, o evoluir demográfico, o desenho rodoviário, a dizerem onde devemos ter as Escolas é estranho. Mas seria ainda mais estranho negarmos aos nossos filhos as melhores Escolas e essas não podem ser construídas como o Estado Novo fez há dezenas de anos atrás, quando as necessidades educativas eram impressionantemente diferentes, quando estradas e meios de transporte nada tinham a ver com o presente, quando recursos do Estado eram geridos de maneira distinta e perspectiva contrária. Uma Escola em cada lugar, em cada pequena aldeia, em cada bairro é uma realidade própria desse Estado fechado, de um saudosismo estranho, de um passado que não regressa.
A nova Escola recebe centenas de crianças para lhes poder oferecer as melhores condições físicas e de projecto educativo, verticaliza o ensino de modo a possibilitar o desenvolvimento de novas competências em idades mais precoces e mais dinâmica abrangência nas disciplinas, matérias e projectos inovadores. A nova Escola tem o seu espaço Internet, a sua sala de informática permanentemente ocupada, o seu ginásio em permanente utilização, a sua biblioteca como palco frequente de iniciativas novas e eventos culturais dinamizadores. A nova Escola tem um corpo docente de enorme abrangência e faz interagir professores de diferentes ciclos, crianças de diferentes idades, educando-as no respeito e na tolerância, na aceitação do próximo e da diferença. Por oposição à velha Escola, onde todas as crianças pertenciam ao mesmo lugar, viam as mesmas coisas, partilhavam a mesma realidade, observavam os mesmos preceitos e tinham os mesmos sonhos, a nova será a de diferentes horizontes, inovadoras perspectivas, melhores recursos e maior intercâmbio cultural. Mas será, também, uma Escola que, oferecendo mais recursos, custará, no médio prazo, menos a todos os contribuintes.
Existe um argumento de peso, que diz respeito ao esvaziamento das pequenas aldeias e lugares, à falta de perspectiva, ao empobrecimento das estruturas de serviço. Não comparável à necessidade da cobertura de assistência médica, é, mesmo assim, de uma importância fundamental para a compreensão da realidade desses lugares. É a consequência, o reverso da medalha de um progresso que leva 70% das crianças à Escola de carro, de uma percentagem ainda mais alta de Pais que se deslocam diariamente para centros maiores para trabalhar e que obedecem, por isso, a um paradigma de escolha do estabelecimento de ensino dos filhos completamente diferente daquele que se observava há poucos anos. E será a vontade dos Pais que fará a Carta Educativa caminhar pacificamente em direcção à concentração das Escolas. Como acontece actualmente em Avanca (fecho pacífico da Escola de Água Levada, futuro fecho da Escola da Bandeira, vontade mais do que clara dos Pais em levar as crianças para a Escola do Mato, mesmo antes dos próximos fechos). O processo, inevitável e sedutor, acabaria com as Escolas de Fermelã e Canelas mesmo antes de elas fecharem, se essa fosse a estratégia. Mas não é. O Município, através da Câmara e da Assembleia Municipal decidiu que esse caminho se faria com determinação e transparência - e decidiu bem, possibilitando um planeamento que se desenvolverá nos tempos mais próximos e libertando as estruturas dos pequenos edifícios escolares para novos e úteis fins (como já se verifica em Santiais) e que abrirá melhores perspectivas para as Colectividades que há tantos anos solicitam espaços onde desenvolver as suas actividades e para onde chamar a população. Quando deste processo começar a resultar uma geração de crianças melhor preparadas e instruídas e quando desta enorme mudança resultar um rejuvenescimento das actividades associativas das dezenas de instituições culturais e recreativas do Concelho, os mais cépticos assinalarão ainda outras perdas, com certeza das mais sérias e apreciáveis, mas mesmo aí permanecerá o registo poético e saudosista. Tenho, já, saudades daquela velha Escola, das antigas carteiras de madeira inclinadas, do soalho de taco corrido, do quadro de lousa preto, do campo de futebol de saibro, das árvores altas que subíamos e das brincadeiras com pedras e vidros. Mas nas velhas carteiras os computadores cairiam, o velho taco não permitiria o actual aquecimento, a lousa não receberia a projecção do slide show, o saibro não aguentaria as marcações nem os jogos de basquetebol, as brincadeiras permitidas são outras e os vidros não se podem atirar.
Adenda: atrasado na minha leitura de blogues, deixo este link para o essencial sobre a matéria, dito por FJV n’A Origem das Espécies - perder tanto tempo a discutir a fórmula de gestão da Escola, leva-nos a esquecer como ela está moribunda…